OS AUTOS-DE-FÉ DA ESQUERDA
18 set 2011 Deixe um comentário
em Sem categoria
As recentes declarações do ator Wagner Moura à revista de esquerda Caros Amigos, de que não falaria com a revista Veja, pois esta seria “uma revista da extrema-direita brasileira”, fez a massa dos esquerdistas que pululam na internet vibrar em uníssono, em todas as redes sociais: “A Veja não serve nem pra decorar mesa de consultório”; “A Veja é mentirosa!!!!!!”; “A Veja é inimiga do cinema brasileiro e estampou uma foto do CAZUZA terminal, tentando viver, com a manchete AGONIZANDO EM PRAÇA PUBLICA. Nojenta!”; “A Veja é tendenciosa e manipuladora”; etc.
O mito da reportagem sobre Cazuza é recorrente, depois de relatado por sua mãe, Lucinha Araújo, em Só as mães são felizes. Mas ela aí também revela que foi Cazuza quem concordou em dar a entrevista à Veja, já bastante adoentado, e sob uma medicação fortíssima que “soltava sua língua”, levado pelo “sonho adolescente de ser capa da revista”. A suposta decepção de Cazuza com a reportagem da Veja de 26/4/1989 (“Uma vítima da AIDS agoniza em praça pública”) – e não o agravamento natural do estado em que se encontrava? – o teria levado à hospitalização e, logo, causado sua morte… Claro que é fascinante culpar uma revista, uma reportagem, uma manchete pela morte de alguém. Mesmo que este alguém já esteja em estado terminal – como uma espécie de golpe de misericórdia.
Contudo, muitos outros jornais e revistas publicaram na época fotos deprimentes do cantor pop agonizando. Cazuza apresentou-se com um aspecto de doente terminal até em shows e especiais de TV. Ele não temia, aparentemente, o sensacionalismo, típico das celebridades do mundo pop e do jornalismo, e não uma exclusividade da Veja. A decisão de “agonizar em praça pública” foi tomada pelo próprio cantor, vaidoso até o fim, e numa última provocação deliberada, coerente com sua trajetória. “Podem até ter publicado fotos, mas nenhuma estampou essa manchete desrespeitosa”, argumentam desesperadamente os que alegam odiar a Veja desde então.
Mas será que essa foi a pior manchete sobre Cazuza? Nem de longe. Lembro, por exemplo, da manchete do jornal Notícias Populares: CAZUZA FERVE O SANGUE, numa referência a um suposto tratamento experimental contra a AIDS que ele estaria fazendo. Nunca ouvi, curiosamente, nenhum crítica a essa manchete, nenhuma análise política sobre isso. De resto, seria preciso pesquisar em todas as revistas brasileiras da época para afirmar com segurança que “nenhuma” outra estampou uma manchete “tão desrespeitosa” quanto a da Veja sobre o cantor. Como a Veja é uma revista de sucesso, pois a mais lida no Brasil, fica a impressão de que foi a pior.
Qualificar a Veja de “inimiga do cinema brasileiro” é outro pensamento paranóide recorrente, e uma inverdade flagrante. O próprio Wagner Moura destacou em sua entrevista contra a revista os elogios que ela fez ao filme que ele estrelou, Tropa de elite, mas “pelos motivos errados”, a seu ver. Aliás, um ator que estrela um filme fascistóide como Tropa de elite tem alguma moral para qualificar uma revista liberal (que comporta articulistas e repórteres das mais variadas tendências políticas) de “revista da extrema-direita brasileira”? Que piada!, dirão. Mas uma piada cheia de conseqüências perigosas.
Anos atrás, num evento promovido no Forum Social Mundial de Porto Alegre, os participantes realizaram um auto-de-fé no melhor estilo da Inquisição Ibérica e da Bücherverbrennung nazista, queimando uma pilha de revistas Veja. Neste momento, a esquerda mundial demonstrava haver se convertido ao PIG – o Partido da Intolerância Global. O ato passou, desde então, a ser repetido pela militância em diversas ocasiões.
Em outubro de 2006, o Comitê da Juventude pró-Lula, composto de várias entidades estudantis, promoveu um ato de protesto no centro de Teresina, no Piauí, no qual queimaram mais de cem exemplares da edição da revista Veja que trazia na capa o adversário de Geraldo Alckmin (PSDB), o então adversário do Presidente da República, Lula (PT), na disputa pelo seu cargo no Palácio do Planalto.
Em outubro de 2007, exemplares de Veja foram queimados em Belo Horizonte, na passeata de abertura da Jornada pela Democratização da Comunicação. Segundo o presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE–MG), Diogo Santos, a mídia faria uma “ditadura contra o povo”. Por isso, “atiramos fogo nos exemplares da revista Veja para simbolizar o nosso repúdio à ditadura da grande imprensa. [...] Minas Gerais está sendo afetada por viver sob censura”, conforme o Blog Vermelho.
Em 19 de agosto de 2009, no Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, um militante raivoso, numa manifestação visivelmente manipulada, incita os moradores de rua a queimar exemplares (trazidos por outros militantes) da revista “inimiga” e “fascista”. As imagens deste pequeno auto-de-fé foram editadas ao som do lindo rap esquerdista “Enfia essa esmola no cu”, de Duda e Moleque de Rua:
Os que fecham os olhos para essas manifestações de intolerância, em contradição com os ideais humanistas, tradicionais de certa esquerda, argumentam que “o nazismo virou carne de vaca”, sendo a associação desprovida de sentido. Para a nova esquerda intolerante, essas ações são legítimas, já que as forças políticas que mais teme, e combate, não são as da direita, da extrema-direita e do nazismo, mas as da democracia, do liberalismo e do neoliberalismo, forças que ela estigmatiza como se fossem as da direita, da extrema-direita e do nazismo, e para o combate das quais não se envergonha de aliar-se à direita, à extrema-direita e ao nazismo.
Esse fenômeno ocorre desde os anos que precederam a Segunda Guerra Mundial e o pacto Molotov-Ribbentrop, como relatou Lindolfo Collor em suas preciosas crônicas reunidas em 1939. Crítico lúcido e implacável das teorias, táticas e pretensões nazistas (pelo que o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha emitiu um documento pedindo sua cabeça), ele percebeu com a mesma lucidez as incoerências das totalitárias estratégias comunistas, que sabotavam muito mais a combalida democracia que o nazismo em ascensão. É a mesma estratégia totalitária de alianças espúrias para sabotar a democracia que se manifesta na atualidade brasileira sob o grotesco “pacto da governabilidade” petista.
Não há veículo de comunicação que não manipule os fatos; concentrar as críticas devidas às práticas comuns do jornalismo, por natureza manipulador, à revista Veja, é uma tática da campanha bem orquestrada pelas esquerdas em seus blogs, sites, jornais e revistas contra as mídias liberais. Veja incomoda sobremodo as elites esquerdistas dominantes. Não sou leitor da Veja, mas simpatizo com todos os perseguidos. Não levo a imprensa brasileira a sério, mas os esquerdistas raivosos, sim: de outro modo não se ocupariam em seus blogs, sites, jornais e revistas a perseguir essa revista inócua.
Que palhaçada!, dirão. Mas trata-se de uma palhaçada sinistra e perigosa, cujo objetivo final é o estabelecimento de uma censura à imprensa, legitimada pelo selo do “fascinante fascismo” de esquerda. Assim, o Blog Consciência organizou um boicote à revista Veja, encabeçado pelo manifesto “Veja Nunca Mais”, e seguido por dezenas de leitores arrependidos, que passaram a cancelar, revoltados, suas assinaturas da revista, chicoteando as próprias costas culpadas de ex-assinantes, em doridas mea culpa.
O Orkut registra várias comunidades de ódio à revista Veja, desde A Revista Veja é do MAL, criada em 2004, com 3.057 membros; VEJA que mentira!, criada em 2004, com 10.661; Nem Veja, Nem Leia, criada em 2006, com 8.713; a campeã Leu na Veja? Azar o seu!, criada em 2006, com 15.997 membros; Eu odeio a revista Veja, criada em 2005, com 2.057 membros; Revista VEJA – Eu CANCELEI, criada em 2006, com 2.724 membros, Revista Veja – Não Veja, criada em 2007, com 5.201; etc.
A revista eletrônica Nova E montou um dossiê contra a revista Veja, com artigos, ensaios e caricaturas que a acusam de ser “controlada” por americanos ou sul-africanos, de ser “tucana”, “racista”, “direitista”, “fascista”, “nazista”, “mentirosa”, “podre”, “canalha”, etc. Seus autores lamentam que a Veja seja lida, que sua tiragem semanal seja de 1,1 milhão de exemplares, que ela tenha 800 mil assinantes, que seja seguida por mais de 1 milhão de pessoas no Twiter: “A maioria dos que compram, gostam das opiniões, gostam do Diogo Mainardi”, lamenta, por exemplo, Raimundo Pereira, que foi um dos primeiros editores da revista, citado no ensaio paranóide “Revista Veja: Laboratório de invenções da elite”, de Anselmo Massad, publicado na revista Fórum. O ódio à Veja é, claro, imediatamente transferido aos seus leitores, que são igualmente estigmatizados como “direitistas”, “fascistas”, “tucanos”, etc. Somente “descerebrados” leriam a Veja, como nesta charge de Maringoni:
A campanha tática contra a revista Veja – enquanto símbolo das mídias liberais, utilizado dentro de uma estratégia política mais ampla, de implantação da “regulação estatal” e do “controle social das mídias” – apenas começou. O objetivo visado é o estabelecimento de um pensamento único de “esquerda”, uniformizado pelo PIG – Partido da Intolerância Global. Em Rinocerontes, de Eugène Ionesco, uma cidade fica espantada com a aparição de um rinoceronte cruzando a praça; logo os cidadãos descobrem tratar-se de uma doença, que os transforma em rinocerontes. Não demora, e toda a cidade apanha a “rinocerontite”, menos um homem, que se recusa, de arma em punho, a juntar-se, e que gira cada vez mais furiosamente ao seu redor. Em tempos de Lula-Dilma, não há peça mais atual.
ESTILOS GROTESCOS
10 jun 2010 1 Comentário
em Nota Tags:Antonio Leite, Dilma Rousseff, Lula, Marta Suplicy
Depois de chamar em discurso sua colega petista Marta Suplicy de Márcia Suplicy - e isso ao ler agradecimentos, Dilma Rousseff afirmou, em entrevista a Antonio Leite, da rádio Planeta Diário, reproduzida em O Estado de S. Paulo, que o Brasil “está crescendo 11% [...]. Nem na China, né. Ou seja, são níveis que você vê hoje na China. No final do ano vai ficar em torno de 6,5%, 7%”.
O crescimento do PIB no primeiro semestre, segundo o IBGE, foi de apenas 2,7%, sendo 6,5 ou 7% apenas uma projeção otimista para o fim do ano. Ou seja: a realidade é 2,7% enquanto se sonha 6,5 a 7%. Mas o real delirante de Dilma já se anuncia como 11%! Seu delírio de PIB inclui uma nota esquizofrênica: “nem na China, ou seja, só na China”.
Dilma ainda afirmou: “Nós sabemos quem endividou (o país), vários governos sucessivos, inclusive o último governo.” Não, ela não se referia ao governo de Lula, mas ao de Fernando Henrique Cardoso, sob a gestão de quem “o Brasil estava em situação periclitante, situação de treme-treme [...]. Estava funhanhado, tremelento, tremilicando.” Esse é o novo estilo de prosa, grotesca, que Dilma, sem o carisma de Lula, foi induzida a adotar…
Concluindo com chave de ouro, Dilma gabou-se, também à maneira de Lula: “Eu ajudei a fazer esse Brasil diferente junto com o presidente Lula. Eu participei deste processo e do governo e ajudei o presidente a coordenar os ministérios e os principais programas do governo. Me sinto extremamente preparada.”. Lula e Dilma jamais ouviram o ditado popular: “Elogio em boca própria é vitupério”. Mas devem ter ouvido outro: “A voz do povo é a voz de Deus”, pois eles se sentem, com a popularidade, seres superiores e divinos.
LULA PROJETA IMAGEM RUIM DO BRASIL
04 jun 2010 Deixe um comentário
em Ensaio crítico Tags:Isla Presidencial, Lula, Rede Globo, South Park
Uma das conseqüências da catastrófica política externa brasileira é a de se tornar um dos alvos do humorismo internacional. Os famosos discursos improvisados de Lula na Presidência do Brasil podem efetivamente ser confundidos com quadros humorísticos dos programas de comédia chula da TV brasileira, tipo CQC, Comédia MTV e, sobretudo, Pânico na TV, o mais baixo, vulgar e preconceituoso de todos. O uso recorrente que Lula faz dos palavrões tornou-se quase uma marca registrada de seu personagem tosco, irritadiço, que adora berrar e fazer gracinhas para uma platéia assustada e submissa. Eis alguns exemplos:
MERDA
PORRA
VIADO
SIFU
Esse Presidente com traços de Jeca Tatu, alvo de tantas paródias nacionais, com sua língua presa, seu dedo cortado, sua megalomania, suas metáforas futebolísticas, seus discursos primários e de non sense, começou agora, graças à sua desastrosa política exterior, a levar o Brasil a ser ridicularizado como nunca antes na História do mundo pelos humoristas internacionais. Os brasileiros, que sempre criticaram os EUA e Israel, sem receber o troco, ao abraçar os inimigos desses países e interferir no andamento das questões da segurança mundial, causaram uma rachadura na tradição de nossas relações diplomáticas. O Brasil terá agora que arcar com as conseqüências pesadas dessas intervenções voluntaristas do globetrotter Lula, e se acostumar a ser um alvo legítimo da gozação.
Uma primeira sátira política internacional surgiu na websérie Isla Presidencial, produzida pelo site venezuelano El Chiguire Bipolar: nessa animação, presidentes latino-americanos (incluindo um Lula ébrio, sempre de copo na mão) zarpam até uma ilha paradisíaca, numa viagem de luxo que acaba em naufrágio, com os presidentes lutando pela sobrevivência:
Em Israel produziu-se, logo após o acordo Brasil-Turquia-Irã, uma paródia política ao estilo caricato de Planeta & Casseta e Zorra Total, pintando Lula com cores fortes, como um tipo atrevido, ignorante, intrometido, gabola, que se põe a tratar de assuntos que desconhece completamente, sempre muito seguro de si. De quebra, os humoristas menosprezam o Brasil como país sem importância de língua espanhola, confundindo samba com rumba, como nos velhos musicais americanos:
Mais sofisticados, os humoristas de South Park superaram em acidez o episódio polêmico da série Os Simpsons, em que o Rio de Janeiro aparecia como selva criminosa cheia de bandidos e macacos, atingindo no episódio de Brasília o cerne da Administração Lula. A tônica é colocada na corrupção, na desonestidade e na mentira, que passaram, desde o impune mensalão que não existiu, a caracterizar os brasileiros, que aprovam seu líder numa proporção de 83%. Em conversa telefônica com alienígenas, Lula tenta apaziguar os novos companheiros, em alusão à influência de poderes estranhos no Brasil, concretizada na aliança com o Irã:
É curioso observar como a Rede Globo anunciou a sátira de South Park como “um episódio sobre a perseguição a um alienígena”, omitindo descaradamente que o cartoon girava de modo explícito e reiterado sobre a corrupção e as mentiras de Lula:
Essa é uma das conseqüências lamentáveis do novo papel que o Brasil agora desempenha, como um elefante entrando num salão de cristal, no complexo tabuleiro de xadrez da política mundial. Não gostamos de reconhecer nossa face refletida de modo distorcido, e para nós sem graça, por esse humorismo estrangeiro. Mas quem sai na chuva quer subconscientemente se molhar. Devemos sempre pensar duas vezes na imagem que projetamos entre as vítimas de nossa política externa antes de meter o nariz aonde não somos chamados. Freud nisso tinha perfeita razão: expulso pela janela, o reprimido retorna pela porta da frente…
VISÕES DESUMANAS
31 mai 2010 Deixe um comentário
em Entrevista Tags:Adolf Hitler, Amos Gitai, Carlos Latuff, Gore Vidal, Hany Abu-Assad, Jean Ziegler, John Le Carré, José Saramago, Leonardo da Vinci, Mikos Theodorakis, Sheila Sacks, Susan Sontag, Winsor McCay
LUIZ NAZARIO responde a Sheila Sacks, em entrevista publicada na edição de setembro de 2008 do Nosso Jornal-Rio e retomada no Portal dos Brasileiros em Israel e no sítio Rio Total.
♦
A arte, como expressão imaginativa e criativa, estaria conceitualmente imune às amarras da ética filosófica tradicional (e suas normatizações em relação ao bem e ao mal)?
Tenho me batido, em meus escritos sobre arte e ideologia, contra a idéia corrente de que o artista é um ser divino, acima do Bem e do Mal. Naturalmente, talentos específicos distinguem um artista de outros cidadãos que não possuem os mesmos talentos, mas esse privilégio não isenta o privilegiado da responsabilidade por suas ações. Se o artista é capaz de sintetizar numa imagem toda uma situação, sua síntese possui um poder de impacto que deve ser considerado. Ao engajar sua arte numa causa, o artista sabe – ou deveria saber – exatamente o que está em jogo. Nenhum artista é obrigado a engajar sua arte. Mas se ele engaja sua arte numa causa justa, por mais liberdade, paz, progresso, verdade, ele deve ser recompensado por prestar voluntariamente um serviço à humanidade. Da mesma forma, se ele engaja sua arte numa causa criminosa, por mais terror, guerra, miséria, mentira, ele deve ser punido por contribuir voluntariamente com a desumanidade. A forma dessa punição deve ser estabelecida pela sociedade. Claro que certas sociedades podem aproveitar-se dessa medida para punir os artistas que as incomodem, estabelecendo uma nova censura, um novo totalitarismo, etc. Daí o receio de se estabelecer critérios de punição para artistas. Os artistas alemães contribuíram em massa com o regime nazista, desempenhando muito bem a parte que lhes coube na execução nacional do Holocausto. Nenhum deles foi punido por isso. E mesmo Leni Riefenstahl, tão próxima de Adolf Hitler, glorificando o regime nazista com seus filmes de propaganda, foi enfim reabilitada.
É crível ao artista/cartunista, no ato da criação, sublimar suas ideologias e preconceitos?
Como disse, o engajamento da arte é uma opção política do artista. Se um cartunista como Carlos Latuff dispõe-se a diabolizar os israelenses para tornar aos olhos do mundo a causa dos palestinos, que ele adotou, mais humana, ele sabe exatamente a que processos e técnicas sua arte precisa recorrer. Tendo o domínio de sua arte, ele expressa exatamente o que deseja expressar. Não pode alegar posteriormente inocência quanto a isso. Naturalmente, tal artista não quer ser visto como racista, e por isso ele se diz de esquerda, deprecia neonazistas e sustenta condenar, em sua arte, apenas um Estado imperialista que massacra palestinos. Mas ao concentrar a humanidade em apenas um dos lados do conflito, diabolizando o outro lado, assume, em sua arte, que todos os crimes podem ser cometidos contra o lado diabolizado.
De que forma a arte do cartoon tem sido usada como uma arma sub-reptícia de guerra?
O cartoon sempre foi usado como arma de guerra, desde a Primeira Guerra Mundial. Veja-se a animação O afundamento do Lusitânia (The Sinking of Lusitania, EUA, 1918), do cartunista Winsor McCay, com mais de 25 mil desenhos numa animação realista, enfatizando o peso dramático da mensagem dirigida contra a Alemanha, cujos submarinos haviam torpedeado e afundado aquele navio de passageiros, resultando em 1.195 vítimas civis, das quais 128 eram cidadãos norte-americanos. Na Segunda Guerra o uso do cartoon na propaganda contra o inimigo foi intensificado, tanto pelo Eixo quanto pelos Aliados. Mas nem toda propaganda de guerra (caricaturas, animações, filmes, etc.) é condenável. É preciso distinguir as propagandas que expressam pontos de vista humanos de solidariedade, amor à liberdade e defesa de uma causa justa das que expressam pontos de vista desumanos, ódio à liberdade, defesa de uma causa injusta. Há propagandas aliadas que, ao combater o racismo e a agressão do Eixo também se mostraram racistas e agressoras. Nenhuma causa deve servir de pretexto para o artista desafogar a própria bestialidade. O que ocorre atualmente no conflito Israel-Palestina é o uso internacional do repertório de clichês anti-semitas da caricatura anti-semita tradicional (dos séculos XIV-XIX), cujas fontes são os sermões da Igreja católica; e nazista (dos anos de 1920-1940), cujas fontes são Os protocolos dos sábios do Sião. Este uso não se faz mais contra o Judeu (isto é, contra o povo judeu), mas contra o Estado Judeu (isto é, contra todos os judeus que se identificam com este Estado). É como se o anti-semitismo, após a criação de Israel, redimensionasse seu ódio ao Judeu para o ódio ao Estado Judeu. Nesta operação, os “anti-sionistas” esperam dividir o povo judeu entre sionistas e não-sionistas e ainda conquistar uma parcela deles para a causa da destruição de Israel. Algumas técnicas imagéticas dessas caricaturas: 1. Animalização dos judeus ortodoxos (pintados sob a forma de ratos, aranhas, serpentes, dragões, etc.); 2. Diabolização das autoridades israelenses (Primeiros-Ministros com chifres e caudas de diabo, cercados de chamas do inferno; renomeação de Israel como “Israelixo” ou “Israhell”, etc.); 3. Negação do Holocausto (associação de Auschwitz a um parque de diversões com inserção de uma roda gigante, por exemplo); 4. Dessacralização da Estrela de Davi (sistematicamente associada a suásticas, crimes, opressões e massacres); 5. Troca histórica de papéis em situações históricas diversas (substituição das tropas SS por soldados israelis, da suástica pela Estrela de Davi, de judeus vitimados no Holocausto por palestinos vitimados por Israel); 6. Pacifismo (associação da causa da destruição da Israel à Pomba da Paz, sempre ferida, mutilada, esmagada e morta por Israel, o “eterno perturbador da paz”, como Hitler, causador da guerra mais mortífera de toda a História, chamava os judeus); etc.
Qual é o papel da globalização nesse contexto?
A globalização deu à História a dimensão do tempo real, ou seja, tudo acontece em todo lugar ao mesmo tempo. O mundo, que sempre foi um, agora é mais um que nunca. Todos os internautas têm acesso a todas as informações de todos os lugares o tempo todo. Mas algumas verdades horríveis não são assimiladas e a má-fé cresce na mesma medida. Numa disciplina que leciono, Cinema e História, um aluno meu escolheu analisar o filme Paradise Now (Paradise Now, 2005), de Hany Abu-Assad. Como poucos, aquele aluno percebeu que o homem-bomba palestino era santificado na cena do banquete, construída como a Santa Ceia, de Leonardo da Vinci. Ao mesmo tempo, ele se recusou a aceitar o sentido dessa santificação. Ele já sabia o que eu pensava a respeito. Mas se ele concordasse comigo precisaria criticar essa analogia, recusar a santidade da causa palestina, o que ele não estava preparado a fazer, pois se os terroristas palestinos não fossem santos, Israel não seria mais tão detestável. E ele tinha a necessidade de odiar Israel para ser feliz, precisava que Israel fosse o Mal para manter funcionando sua visão de mundo baseada na má-fé.
Quais os fatores que favorecem, na sociedade brasileira atual, a disseminação do preconceito e a demonização de Israel?
A idéia de que para ser cool, in, fashion, basta odiar os Estados Unidos (o Grande Satã) e Israel (o Pequeno Satã), e de que todo o resto virá automaticamente. Pensar dá muito trabalho, é mais fácil seguir o rebanho. E se a nova onda é um novo tipo de fascismo, é o que se terá no Brasil. Aliás, é o que já temos. Um novo fascismo de esquerda, com discriminação total a Israel e aos EUA. Escritores e artistas como Gore Vidal, José Saramago, John Le Carré, Jean Ziegler e Mikos Theodorakis ajudaram a dar, através de declarações raivosas contra Israel nas mídias de consumo, prestígio intelectual ao pathos antissemita. Mesmo escritores e artistas judeus precisam, agora, para fazer sucesso junto às mídias, mostrar-se contra Israel em certa medida, como o fez Susan Sontag, cujos ensaios admiro, em seus discursos políticos, incluindo o de agradecimento ao Prêmio Jerusalém, coletados recentemente em Ao mesmo tempo. Cineastas israelenses devem fazer como Amos Gitai: criticar Israel em filmes e entrevistas – caso contrário, não ganharão destaques, prêmios e retrospectivas em festivais internacionais de cinema. A obrigação de atacar os EUA e Israel generalizou-se. Não que os EUA e Israel sejam inatacáveis, mas quando apenas EUA e Israel são atacados e se poupam os Estados que efetivamente suprimem liberdades civis, acobertam terroristas, doutrinam crianças, perseguem minorias, inferiorizam mulheres, etc. então não se trata de críticas exprimindo visões humanistas, mas de difamações propagando visões desumanas.
