OS AUTOS-DE-FÉ DA ESQUERDA

As recentes declarações do ator Wagner Moura à revista de esquerda Caros Amigos, de que não falaria com a revista Veja, pois esta seria “uma revista da extrema-direita brasileira”, fez a massa dos esquerdistas que pululam na internet vibrar em uníssono, em todas as redes sociais: “A Veja não serve nem pra decorar mesa de consultório”; “A Veja é mentirosa!!!!!!”; “A Veja é inimiga do cinema brasileiro e estampou uma foto do CAZUZA terminal, tentando viver, com a manchete AGONIZANDO EM PRAÇA PUBLICA. Nojenta!”; “A Veja é tendenciosa e manipuladora”; etc.

O mito da reportagem sobre Cazuza é recorrente, depois de relatado por sua mãe, Lucinha Araújo, em Só as mães são felizes. Mas ela aí também revela que foi Cazuza quem concordou em dar a entrevista à Veja, já bastante adoentado, e sob uma medicação fortíssima que “soltava sua língua”, levado pelo “sonho adolescente de ser capa da revista”. A suposta decepção de Cazuza com a reportagem da Veja de 26/4/1989 (“Uma vítima da AIDS agoniza em praça pública”) – e não o agravamento natural do estado em que se encontrava? – o teria levado à hospitalização e, logo, causado sua morte… Claro que é fascinante culpar uma revista, uma reportagem, uma manchete pela morte de alguém. Mesmo que este alguém já esteja em estado terminal – como uma espécie de golpe de misericórdia.

Contudo, muitos outros jornais e revistas publicaram na época fotos deprimentes do cantor pop agonizando. Cazuza apresentou-se com um aspecto de doente terminal até em shows e especiais de TV. Ele não temia, aparentemente, o sensacionalismo, típico das celebridades do mundo pop e do jornalismo, e não uma exclusividade da Veja. A decisão de “agonizar em praça pública” foi tomada pelo próprio cantor, vaidoso até o fim, e numa última provocação deliberada, coerente com sua trajetória. “Podem até ter publicado fotos, mas nenhuma estampou essa manchete desrespeitosa”, argumentam desesperadamente os que alegam odiar a Veja desde então.

Mas será que essa foi a pior manchete sobre Cazuza? Nem de longe. Lembro, por exemplo, da manchete do jornal Notícias Populares: CAZUZA FERVE O SANGUE, numa referência a um suposto tratamento experimental contra a AIDS que ele estaria fazendo. Nunca ouvi, curiosamente, nenhum  crítica a essa manchete, nenhuma análise política sobre isso. De resto, seria preciso pesquisar em todas as revistas brasileiras da época para afirmar com segurança que “nenhuma” outra estampou uma manchete “tão desrespeitosa” quanto a da Veja sobre o cantor. Como a Veja é uma revista de sucesso, pois a mais lida no Brasil, fica a impressão de que foi a pior.

Qualificar a Veja de “inimiga do cinema brasileiro” é outro pensamento paranóide recorrente, e uma inverdade flagrante. O próprio Wagner Moura destacou em sua entrevista contra a revista os elogios que ela fez ao filme que ele estrelou, Tropa de elite, mas “pelos motivos errados”, a seu ver. Aliás, um ator que estrela um filme fascistóide como Tropa de elite tem alguma moral para qualificar uma revista liberal (que comporta articulistas e repórteres das mais variadas tendências políticas) de “revista da extrema-direita brasileira”? Que piada!, dirão. Mas uma piada cheia de conseqüências perigosas.

Anos atrás, num evento promovido no Forum Social Mundial de Porto Alegre, os participantes realizaram um auto-de-fé no melhor estilo da Inquisição Ibérica e da Bücherverbrennung nazista, queimando uma pilha de revistas Veja. Neste momento, a esquerda mundial demonstrava haver se convertido ao PIG – o Partido da Intolerância Global. O ato passou, desde então, a ser repetido pela militância em diversas ocasiões.

Em outubro de 2006, o Comitê da Juventude pró-Lula, composto de várias entidades estudantis, promoveu um ato de protesto no centro de Teresina, no Piauí, no qual queimaram mais de cem exemplares da edição da revista Veja que trazia na capa o adversário de Geraldo Alckmin (PSDB), o então adversário do Presidente da República, Lula (PT), na disputa pelo seu cargo no Palácio do Planalto.

Em outubro de 2007, exemplares de Veja foram queimados em Belo Horizonte, na passeata de abertura da Jornada pela Democratização da Comunicação. Segundo o presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE–MG), Diogo Santos, a mídia faria uma “ditadura contra o povo”. Por isso, “atiramos fogo nos exemplares da revista Veja para simbolizar o nosso repúdio à ditadura da grande imprensa. […] Minas Gerais está sendo afetada por viver sob censura”, conforme o Blog Vermelho.

Em 19 de agosto de 2009, no Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, um militante raivoso, numa manifestação visivelmente manipulada, incita os moradores de rua a queimar exemplares (trazidos por outros militantes) da revista “inimiga” e “fascista”. As imagens deste pequeno auto-de-fé foram editadas ao som do lindo rap esquerdista “Enfia essa esmola no cu”, de Duda e Moleque de Rua:

Os que fecham os olhos para essas manifestações de intolerância, em contradição com os ideais humanistas, tradicionais de certa esquerda, argumentam que “o nazismo virou carne de vaca”, sendo a associação desprovida de sentido. Para a nova esquerda intolerante, essas ações são legítimas, já que as forças políticas que mais teme, e combate, não são as da direita, da extrema-direita e do nazismo, mas as da democracia, do liberalismo e do neoliberalismo, forças que ela estigmatiza como se fossem as da direita, da extrema-direita e do nazismo, e para o combate das quais não se envergonha de aliar-se à direita, à extrema-direita e ao nazismo.

Esse fenômeno ocorre desde os anos que precederam a Segunda Guerra Mundial e o pacto Molotov-Ribbentrop, como relatou Lindolfo Collor em suas preciosas crônicas reunidas em 1939. Crítico lúcido e implacável das teorias, táticas e pretensões nazistas (pelo que o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha emitiu um documento pedindo sua cabeça), ele percebeu com a mesma lucidez as incoerências das totalitárias estratégias comunistas, que sabotavam muito mais a combalida democracia que o nazismo em ascensão. É a mesma estratégia totalitária de alianças espúrias para sabotar a democracia que se manifesta na atualidade brasileira sob o grotesco “pacto da governabilidade” petista.

Não há veículo de comunicação que não manipule os fatos; concentrar as críticas devidas às práticas comuns do jornalismo, por natureza manipulador, à revista Veja, é uma tática da campanha bem orquestrada pelas esquerdas em seus blogs, sites, jornais e revistas contra as mídias liberais. Veja incomoda sobremodo as elites esquerdistas dominantes. Não sou leitor da Veja, mas simpatizo com todos os perseguidos. Não levo a imprensa brasileira a sério, mas os esquerdistas raivosos, sim: de outro modo não se ocupariam em seus blogs, sites, jornais e revistas a perseguir essa revista inócua.

Que palhaçada!, dirão. Mas trata-se de uma palhaçada sinistra e perigosa, cujo objetivo final é o estabelecimento de uma censura à imprensa, legitimada pelo selo do “fascinante fascismo” de esquerda. Assim, o Blog Consciência organizou um boicote à revista Veja, encabeçado pelo manifesto “Veja Nunca Mais”, e seguido por dezenas de leitores arrependidos, que passaram a cancelar, revoltados, suas assinaturas da revista, chicoteando as próprias costas culpadas de ex-assinantes, em doridas mea culpa.

O Orkut registra várias comunidades de ódio à revista Veja, desde A Revista Veja é do MAL, criada em 2004, com 3.057 membros; VEJA que mentira!, criada em 2004, com 10.661; Nem Veja, Nem Leia, criada em 2006, com 8.713; a campeã  Leu na Veja? Azar o seu!, criada em 2006, com 15.997 membros; Eu odeio a revista Veja, criada em 2005, com 2.057 membros; Revista VEJA – Eu CANCELEI, criada em 2006, com 2.724 membros, Revista Veja – Não Veja, criada em 2007, com 5.201; etc.

A revista eletrônica Nova E montou um dossiê contra a revista Veja, com artigos, ensaios e caricaturas que a acusam de ser “controlada” por americanos ou sul-africanos, de ser “tucana”, “racista”, “direitista”, “fascista”, “nazista”, “mentirosa”, “podre”, “canalha”, etc. Seus autores lamentam que a Veja seja lida, que sua tiragem semanal seja de 1,1 milhão de exemplares, que ela tenha 800 mil assinantes, que seja seguida por mais de 1 milhão de pessoas no Twiter: “A maioria dos que compram, gostam das opiniões, gostam do Diogo Mainardi”, lamenta, por exemplo, Raimundo Pereira, que foi um dos primeiros editores da revista, citado no ensaio paranóide “Revista Veja: Laboratório de invenções da elite”, de Anselmo Massad,  publicado na revista Fórum. O ódio à Veja é, claro, imediatamente transferido aos seus leitores, que são igualmente estigmatizados como “direitistas”, “fascistas”, “tucanos”, etc. Somente “descerebrados” leriam a Veja, como nesta charge de Maringoni:

A campanha tática contra a revista Veja – enquanto símbolo das mídias liberais, utilizado dentro de uma estratégia política mais ampla, de implantação da “regulação estatal” e do “controle social das mídias” – apenas começou. O objetivo visado é o estabelecimento de um pensamento único de “esquerda”, uniformizado pelo PIG – Partido da Intolerância Global. Em Rinocerontes, de Eugène Ionesco, uma cidade fica espantada com a aparição de um rinoceronte cruzando a praça; logo os cidadãos descobrem tratar-se de uma doença, que os transforma em rinocerontes. Não demora, e toda a cidade apanha a “rinocerontite”, menos um homem, que se recusa, de arma em punho, a juntar-se, e que gira cada vez mais furiosamente ao seu redor. Em tempos de Lula-Dilma, não há peça mais atual.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Ricardo Burgarelli
    jun 25, 2012 @ 15:53:17

    A Revista Veja também acredita na teoria da implantação do “pensamento único de esquerda”, e foi com esse discurso que se defendeu das acusações de ter ligações com o o criminoso Carlinhos Cachoeira. Para complicar ainda mais sugeriram o controle da internet. Se ao menos as esquerdas conseguissem ter um pensamento único… http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-efeito-skuromatic/

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    • Luiz Nazario
      jun 25, 2012 @ 18:30:20

      Não existe pensamento único de esquerda, extistem ditaduras de esquerda que impõem o pensamento único através da instituição do Partido único e da estatização dos meios de comunicação de massa. Nessas ditaduras de esquerda, depois que a elite dirigente liquida os “inimigos de classe”, não tendo mais “capitalistas”, “burgueses” e “direitistas” para prender e matar, ela começa a liquidar os próprios camaradas, seja por inimizades pessoais, seja por ousarem criticar algum ponto do conjunto dos dogmas marxistas, impostos pelo Partido único nos meios de comunicação estatizados, e que é um arcabouço de propaganda frágil, mas intocável, por manter no poder aquelas elites dirigentes. Quanto a Veja, Carta Capital e outras revistas do gênero, leia quem quiser e tiver tempo a perder, masoquisticamente se irritando ou sadicamente se alimentando com distorções jornalísticas.

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  2. Tomás Pimenta
    jun 25, 2012 @ 20:15:58

    Infelizmente as tais “ditaduras de esquerda” só puderam se estabelecer no momento em que os militantes de esquerda propriamente foram assassinados, exilados e expurgados. As primeiras críticas e mais violentas ao autoritarismo “de esquerda” surgiram de militantes dos próprios partidos socialistas e muito antes de que os regimes tenham tomado a forma que tiveram. Exemplos são vários… infelizmente estes que mataram e exterminaram seus adversários foram os que se estabeleceram e se tornaram os autos-de-fé. Só não podemos nos esquecer dos derrotados, dos que perderam e foram abandonados pela história. Voltar a crítica a uma revista é resquício dessa parcela da esquerda paranóica, maniqueísta e que acaba se tornando desinformada. A pauta da esquerda deveria ser uma discussão sobre democratização dos instrumentos de comunicação, de produção artística e cultural. Esse é um ato revolucionário. Não queimar exemplares de uma empresa que vive de lobby e tráfico de informações/influências.

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    • Luiz Nazario
      jun 25, 2012 @ 21:07:33

      Nada disso, as ditaduras de esquerda surgem, fundamentadas na teoria marxista da ditadura do proletariado, assim que as revoluções socialistas se consolidam, com os militantes de esquerda, antes marginalizados pelo sistema, instalando-se no poder e passando a usar, contra os “inimigos de classe”, adversários em geral e, finalmente, ex-companheiros de luta revolucionária, os mesmos instrumentos de controle e repressão do Estado burguês e capitalista, agora chamado de proletário e socialista. Quanto à “discussão sobre democratização dos instrumentos de comunicação, de produção artística e cultural” nada mais é que o prelúdio dos autos-de-fé da esquerda. Os militantes de esquerda imaginam-se progressistas ao permitir um debate cujo resultado será a estatização das mídias, que é o que os socialistas entendem por democratização da cultura.

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  3. Tomás Pimenta
    jun 25, 2012 @ 21:21:39

    Mais uma vez a redução da esquerda aos “vencedores”. Ignorar os teóricos e militantes do socialismo “democrático” (não gosto dessa palavra, mas é a que talvez traduza melhor hoje o significado), é um belo artifício para criticar o socialismo como tal e sua redução à “ditadura do proletariado” (que pode ter pertencido ao movimento socialista do século XX, mas que não condiz com o significado de quando professada). E a estatização seria a própria negação da noção de emancipação do homem que está contida em Marx, pois este dedicou grande parte de sua trajetória intelectual a uma crítica ao Estado moderno e à própria política. Estado e socialismo são antagônicos por excelência…

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