EXTRATERRESTRES, SIM, HOMOSSEXUAIS, NÃO?

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No dia 3 de dezembro de 2003, Elcio Berti (DEM), prefeito de Bocaiúva do Sul, no Paraná, pretendendo aumentar a natalidade e “preservar uma atmosfera respeitosa e familiar” na cidade, assinou um decreto onde “fica vedada a concessão de moradia e a permanência fixa de qualquer elemento ligado a esta classe (os homossexuais), que não trará qualquer natureza de benefícios para este município”.

De acordo com o prefeito, sua decisão de editar o novo decreto de expulsão dos homossexuais de Bocaiúva do Sul foi tomada assim que ele recebeu a ligação telefônica de um homem que queria morar no município com o namorado. O prefeito declarou então à CBN:

Nossa preocupação é muito grande, quanto às crianças, quanto às famílias bocaiuvenses. Nós não podemos aceitar qualquer coisa em nosso município. A grande verdade é que tomamos um posicionamento. [O casamento gay] é uma tentativa de ridicularizar a instituição do casamento como instituição natural para a geração e educação de filhos. Não é isso que nós queremos. Nós queremos uma população sadia, de trabalho, de futuro.

Em outra entrevista à imprensa, Berti declarou:

Fiz isso para preservar a dignidade da família. Não posso permitir que as crianças vejam dois homens se beijando. [Os gays] são pessoas sem identidade, sem dignidade. Deveriam ter respeito pelos outros cidadãos. Isso é anormal.

Além dos objetivos educativo e reprodutivo, outro mais pragmático movia o guloso prefeito: o aumento da população da cidade implicava no aumento da verba recebida pelo Fundo de Participação dos Municípios, calculado de acordo com o número de habitantes. O prefeito queria aumentar o número dos habitantes de Bocaiúva do Sul (nove mil ou doze mil, dependendo das fontes) para obter mais verbas.

Allan Johan, do grupo Dignidade, que defende os direitos dos homossexuais, considerou o decreto de Elcio Berti neonazista e anticonstitucional e entrou na Justiça contra o prefeito, que já havia proibido a venda de camisinhas e cigarros e distribuía pacotes de amendoim e Viagra para “aumentar a população da cidade”.

Mais tarde, num debate com o prefeito Berti na rede de TV CNT, o presidente do Dignidade, Toni Reis, surpreendeu-se com o apoio dos espectadores: foram lidos diversos e-mails defendendo não apenas a expulsão, mas também a morte dos homossexuais.

Embora não desejasse homossexuais em Bocaiúva do Sul, o ambicioso prefeito Berti tentou construir um “Ovniporto”, sim, um aeroporto para Objetos Voadores Não Identificados, com a intenção de atrair extraterrestres para o município. Ao contrário dos homossexuais, os alienígenas seriam bem-vindos à cidade. Talvez o delirante prefeito imaginasse um sadio cruzamento entre os ETs e as bocaiuvenses, para repovoar mais rapidamente o município e assim aumentar seu caixa.

Nascido na Itália em 1949, futebolista amador e comentador esportivo de rádio, o prefeito Elcio Berti comandou Bocaiúva do Sul de 1997 a 2004 e elegeu a mulher, Lindiara, como sucessora, para 2005. Mas ela acabou cassada devido a irregularidades. Berti faleceu em 2009, com um câncer no estômago que se alastrou para os ossos. Seu nome ficará inscrito na História Universal da Infâmia graças à inglória tentativa de expulsar os gays de Bocaiúva do Sul e repovoá-la com alienígenas.