GUERRA FRIA NA BLOGOSFERA

Pimenta

Há uma Guerra Fria na blogosfera, e a última batalha foi desencadeada por um post de “Adriano Brasil” no Blog de Reinaldo Azevedo, afirmando que os dois donos da boate Kiss, onde morreram queimados, pisoteados e intoxicados 241 jovens, seriam gerentes-laranja de duas “empresárias”, laranjas por sua vez do Deputado Federal Paulo Pimenta (PT-RS), de Santa Maria. Isso explicaria o funcionamento da boate sem fiscalização séria e a presença da cúpula do PT em Santa Maria  após a  tragédia.

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A denúncia sem provas dava outro sentido à notícia de que o presidente da Câmara Federal, Marcos Maia (PT), nomeara Pimenta para coordenar a comissão dos parlamentares que acompanham as investigações sobre o incêndio na boate. Muitos blogueiros difundiram como verdade o boato facilitado pela lembrança de que Pimenta se encontrara com Marcos Valério na garagem do Congresso quando vice-presidente da CPI do Mensalão, tendo por isso que renunciar ao cargo. Ele se elegeu novamente em 2006 e foi reeleito em 2010 com quase 160 mil votos, mas os elefantes não esquecem.

A denúncia, claro, foi veementemente desmentida pelo acusado. Apesar disso, espalhou-se na blogosfera com a rapidez de um raio, passando a ser atribuída a Marcello Reis, fundador do Blog Revoltados ON LINE, que compara adversários a ratos e fezes, denotando uma tendência fascista que se manifesta ainda em logos e design de camisetas, e que reproduziu o post de “Adriano Brasil” como seu, levantando a suspeita de ser a mesma pessoa.

Já o Blog do Rovai atacou a charge de Paulo Caruso que apareceu no Blog do Noblat e que teria politizado a tragédia. De péssimo gosto, a charge ali publicada sob a rubrica de “Humor”, que adquire então conotação infame, não traz traço da politização denunciada, limitando-se a um trocadilho idiota:

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Para reforçar seu lado, Rovai publicou então uma entrevista com Pimenta a declarar que processará todos os blogueiros que divulgaram a “calúnia”, levando a perseguição aos “mentirosos” até as últimas consequências. Apoiando a medida, o leitor “francisco niteroi” postou comentário esclarecedor sobre a estratégia:

Em princípio, sou contra a judicialização da politica. Porém, como a sociedade brasileira, bem como a sua expressão maior, que é a politica, estão doentes por causa da mídia desregulada e reacionária, acredito que a solução é judicializar, levando às barras dos tribunais todos aqueles que falam sem provas, criam factoides, etc. Na Justiça, mesmo com todos os problemas lá existentes, sempre há a perspectiva de prejuízo financeiro. Dessa forma, enquanto a sonhada democratização da mídia não vem, eu acho que o PT e seus membros tem que levar sempre, e muito, e todo dia, muitas pessoas aos tribunais. Foi só o deputado ir pra policia que o pessoal já estremeceu. Temos que adotar isso sempre. Talvez diminua este clima de vale tudo em que vivemos.

O “francisco niteroi” considera que a sociedade brasileira está “doente”. E culpa disso não o regime no poder, que governa o país há mais de uma década, mas “a mídia desregulada e reacionária”. Propõe, como remédio, o uso massivo do Judiciário para calar a boca da oposição enquanto não vem a Censura, que há de curar a sociedade doente. A proposta ousada poderia ser seguida pelas vítimas das difamações dos blogs vermelhos, que acusam igualmente sem provas, de crimes e falcatruas, aqueles a quem eles chamam de “tucanalha”.

O Blog Eduardo Homem de Carvalho desafiou então o Deputado Pimenta a processar toda a grande imprensa, que divulgou diversos escândalos em que ele aparece, com ou sem razão, envolvido. Ataques e contra-ataques se sucedem nos blogs de direita e de esquerda, elevando os ânimos às alturas. Contudo, reações exageradas e estratégias declaradas de criminalizar a oposição, conferindo ao PT o papel da Eterna Vítima do Sistema e, logo, acima das leis, levantam a suspeita, infundada ou não, de que sob a fumaça há fogo.

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A ESQUERDA BRUZUNDANGA CONTRA A LIBERDADE

O Paraíso cubano

O Paraíso cubano: sem fome, sem crime, sem capitalismo, sem liberdade

Em sua palestra no auditório do Estadão, em São Paulo, a blogueira cubana Yoani Sánchez criticou a posição do governo brasileiro em relação aos direitos humanos em Cuba: “Falta dureza para o tema dos direitos humanos. No caso do Brasil, há muitos silêncios. Recomendaria um posicionamento mais enérgico do governo, pois o povo não esquece”. Sobre os protestos que amargou na Bahia – onde até puxaram seus cabelos – afirmou que veio preparada: “Já havia recebido ameaças pela Internet”.

O infantilismo da Esquerda Bruzundanga conseguiu irritar até aquele senador petista com fama de leguminoso, que deve ter ajudado a armar o circo de horrores e agora passa, por sua civilidade, por um traidor da causa. Ele sequer conseguiu assentar o mini Führer vermelho de chapeuzinho fashion que tentava coagir a blogueira a assinar um documento, berrando para puxar o coro dos fanáticos: “Ela não vai assiná! Não vai assiná! Assina aí! Assina aí!”, logo depois de terem acusado a cubana de ser uma mercenária e uma agente da CIA. Isso é o que a Esquerda Bruzundanga chama de debate democrático:

Yoani, que, aliás, defende o fim do bloqueio econômico a Cuba, a seu ver usado pelos comunistas para justificar o fracasso do regime, faz um tour de conferências por vários países. Já era uma celebridade antes da Esquerda Bruzundanga produzir o escândalo midiático que só fez atrair mais atenção e granjear admiradores para a blogueira, mobilizando políticos, jornalistas e até agentes policiais: após os tumultos no aeroporto e no “debate” em Salvador, foi-lhe oferecida uma escolta policial.

Em 2007, a revista Time elegeu Yoani uma das pessoas mais influentes do mundo. Era uma dissidente jovem, inteligente, bem informada, que desafiava a ditadura cubana com crônicas do cotidiano de Cuba em seu blog Generación Y, um dos mais lidos da rede. Formada em Filologia Hispânica, ela havia sido convidada a visitar outros países, mas tinha seu passaporte retido pelas autoridades cubanas. Estava proibida de sair da Ilha – como a maioria da população de Cuba.

Pode ser que a blogueira dissidente tenha sido liberada agora como uma forma de propaganda maquiavélica, típica dos socialistas, da reforma migratória que passou a vigorar em Cuba a 14 de janeiro de 2013, neutralizando a lei de restrição de saída do país vigente desde 1961. Os cubanos já podem viajar para fora! Podem mesmo? Mais uma propaganda enganosa: quantos cubanos deixarão a Ilha se sua população ganha em média 17 dólares mensais?

Embora tenha se preparado para as agressões verbais, Yoani ficou chocada, mais tarde, com os protestos que irromperam no que deveria ser uma sessão tranquila, na Câmara dos Deputados, onde ela tentou novamente ver o documentário Conexão Cuba Honduras, de Dado Galvão, onde ela é entrevistada, e que havia sido censurado pelos Bruzundangas no evento de Salvador.

Na Câmara, entre os manifestantes mais ruidosos estava um servidor da Casa, Rodrigo Grassi Cademartori, vulgo Rodrigo Pilha, secretário no gabinete da deputada federal Érika Kokay (PT-DF). Enquanto parlamentares da oposição tentavam ouvir Yoanis, o funcionário, em horário de trabalho, com o crachá de servidor escondido sob a camiseta, berrava do fundo do plenário, acompanhado por dois manifestantes: “Deixa os movimentos sociais entrarem!”. Do lado de fora, oito Bruzundangas tentavam passar por cima dos seguranças para adentrar à força no Plenário.

Outro funcionário público, este da Presidência, participou da reunião realizada na embaixada de Cuba, quando foi distribuído um dossiê acusando Yoani de estar a serviço da CIA. O embaixador teria pedido aos Bruzundangas apoio para desacreditar e perseguir a blogueira durante sua viagem. Entre incontáveis Bruzundangas, Jussara Seixas, editora do Blog da Dilma, atendeu ao pedindo fazendo campanha contra a cubana que chamou de  “blogueira rola bosta”.

Em coletiva à imprensa, Yoani comentou a ação do embaixador cubano (denunciada pelo senador Álvaro Dias) como uma tentativa de matá-la ética e moralmente frente aos seus leitores. Embora os luminares da Esquerda Bruzundanga continuem a venerar o jurássico ditador Castro, indo pedir periodicamente sua bênção na desgraçada ilha pintada como Paraíso (fiscal?), parece que há algo de podre no reino da Dinamarca, que faz com seus atletas (os de Cuba, não os da Dinamarca) desertem ao pisar em terra estrangeira, quando têm a oportunidade de fazê-lo durante os campeonatos internacionais.

E isso acontece a despeito de os atletas, supostamente modelos de cidadãos patrióticos, serem controlados com o maior rigor pelo regime cubano. A reforma migratória de 2013 não incluiu os atletas profissionais. Segundo o chefe de migração cubano Lamberto Fraga, eles continuarão enfrentando restrições e dependerão de permissão especial para poder viajar para fora do país. Nesse contexto, é espantoso o número de atletas que, a cada ano, desertam de Cuba em campeonatos no exterior:

12 de março de 2008: Cinco jogadores de futebol cubanos desertam nos EUA.

13 de março de 2008: Um dia depois mais dois jogadores de futebol da seleção cubana desertam nos EUA.

19 de junho de 2012: Cinco jogadores de basquete cubano desertam em Porto Rico.

13 de outubro de 2012: Quatro jogadores de futebol da seleção cubana desertam no Canadá.

20 de fevereiro de 2013: Três jogadoras de vôlei da seleção cubana desertam na Inglaterra.

Menos sorte tiveram os dois boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que tentaram desertar no País dos Bruzundangas, durante os Jogos Pan-Americanos de 2007. Localizados pela Polícia Federal, os dois atletas foram encaminhados a Havana pelo então ministro da Justiça, Tarso Genro, sustentou que os pugilistas não haviam solicitado asilo ao Brasil e pediram espontaneamente para serem remetidos a Cuba. Os cubanos não podiam imaginar que a grande nação dos Bruzundangas, com fama de democrática, iria caçá-los e mandá-los de volta ao Paraíso, do qual estupidamente quiseram escapar. Sobre esse caso horripilante escreveram as advogadas Hamana Dias e Hérica Amaro:

O ministro Tarso Genro, defensor das razões humanitárias, negou asilo […] a dois boxeadores cubanos que, em 2007, após o Panamericano, no Rio, pediram para refugiar-se neste país, já que receavam perseguições em Cuba. Todavia, inexplicavelmente, o governo brasileiro devolveu-os a Fidel Castro, que os encarcerou. Ou seja, o Estado brasileiro ignorou as regras internacionais necessárias à concessão de asilo político, pois tratou os cubanos como se não fossem titulares de direitos internacionais […]. Caso os cubanos representassem o Brasil na Corte Internacional de Justiça ou na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, se em Cuba eles tivessem liberdade suficiente para questionar a decisão do Brasil, possivelmente o país seria condenado. [1]

Graças ao nosso então ministro da Justiça duas almas cubanas desviadas foram salvas da perdição. Que exemplo inspirador e exaltante! O mundo deveria aprender conosco. Os próprios cubanos deveriam aprender a amar Cuba e jamais desertá-la. Enquanto esses ingratos tentam fugir do Paraíso (fiscal?), os luminares da Esquerda Bruzundanga fazem fila para entrar lá.

O próprio Tarso Genro, já eleito governador do Rio Grande do Sul, causou furor ao anunciar que, ao invés de ir para uma capital europeia nas férias de janeiro de 2011, iria para Cuba com toda a família – com  despesas pagas pela mesma. Antes, Tarso esteve pelo menos duas vezes em missões oficiais na Ilha: em 2005, como ministro da Educação, e em 2009, como ministro da Justiça.

Não sabemos se existe alguma relação entre as constantes viagens de Tarso Genro ao Paraíso (fiscal?) cubano e a ocultação, por razões de segurança, no Portal Transparência, dos gastos de seu gabinete em 2012 (R$303.257,00), quase três vezes maior que em 2011 (R$116.068,80). Os lançamentos dizem respeito principalmente a viagens. As despesas do governador em 2012 foram superiores a todas as diárias gastas no ano pela maioria das autarquias estaduais.

Há algo de podre no reino de Bruzundanga…


[1] DIAS, Hamana Karlla Gomes; AMARO, Hérica Rodrigues do Nascimento. Concessão de asilo político no Brasil. Respeito às normas de Direito Internacional ou conveniência diplomática?. Jus Navigandi, Teresina, ano 15, n. 2533, 8 jun. 2010. Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/14997&gt;. Acesso em: 21 fev. 2013. Leia mais: http://jus.com.br/revista/texto/14997/concessao-de-asilo-politico-no-brasil#ixzz2LaZkyXPR.

ESVAZIANDO O MENSALÃO

Em 2003, no primeiro ano de mandato do ex-presidente Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva, a empresa de publicidade DNA Propaganda, do empresário mineiro Marcos Valério, conseguiu a renovação de um contrato de R$ 153 milhões com o Banco do Brasil. Segundo o Ministério Público, esse contrato teria servido de fonte de recursos para o financiamento do esquema de “recompensa” de deputados que aprovavam os projetos do governo – o chamado “mensalão”. O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou à época irregularidades nos contratos da DNA. Henrique Pizzolato, então diretor de marketing do BB, teria viabilizado os recursos para o mensalão  através de repasses de bonificações.

De fato, o novo governo, de um partido minoritário sem base de apoio no Congresso, já governava com incrível facilidade, tendo todos os seus projetos aprovados (a abolição da CPMF foi a única derrota do governo Lula em oito anos). Nem mesmo o PSDB se opunha aos projetos do governo petista, pois via agora seus planos neoliberais, bombardeados pelas esquerdas durante a administração FHC, serem apropriados pelas esquerdas no poder, aprovados por todos sem discussão. O esquema funcionava bem, até que, em 2005, o então deputado Roberto Jefferson (PTB), na iminência de ser o único condenado num esquema de corrupção, abriu as cortinas dos bastidores para o grande público.

Os suspeitos contratos assinados com a DNA estariam servindo como um canal de drenagem de recursos públicos para compra de votos. Melhor dizendo: de gratificações generosas aos deputados, a título pessoal, pelo apoio manifestado nas sessões de votação dos projetos do governo. O escândalo provocou a queda das cúpulas do PT, do PP e do PL (hoje PR), além da cassação do mandato do denunciante e do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, para quem tudo não passava de “caixa dois”. Essa prática, antes condenada pelo PT, era agora assumida como “normal”: se todos praticam “caixa dois”, porque não também o PT?

O que todos praticam deixa de ser ilegal, passa no máximo por algo inadequado, mas ainda dentro das normas, um costume ruim, mas socialmente aceito. O escândalo se vê esvaziado. Como a Justiça brasileira é tradicionalmente lenta e ineficiente, esses pecadilhos são logo perdoados e esquecidos. O PT recuperou rapidamente seus luminares momentaneamente apagados, levantou seus ídolos caídos por instantes, e os militantes difundiram sandices em massa, batendo na tecla de outros esquemas de corrupção, como o esquema do PSDB mineiro, o “mensalinho” que teria sido anterior, e, portanto, “o pai de todos os mensalões”, etc. A própria ética, brandida pelo PT na oposição contra os adversários corruptos, passou a ser questionada pela militância: se a esquerda quer o poder, tem que sujar as mãos! Jean-Paul Sartre não queria, com As mãos sujas, legitimar a corrupção. O dilema ético de seu personagem era bem outro. Já para a esquerda brasileira sujar as mãos significa molhar as mãos. Corrompendo os corruptos, os corruptores de esquerda sentem-se limpos apesar de tudo!

Muito antes de seu julgamento pelo STF, o mensalão começou a ser esvaziado pela máquina do poder petista, para impedir a condenação dos 38 réus do processo de 50 mil páginas e 600 testemunhas. O julgamento foi adiado ao máximo, até que todas as provas fossem destruídas e os prazos para as principais condenações se expirassem. Outros poderes foram submetidos a pressões, com Lula fazendo aprovar sua indicação de Dias Toffoli, advogado do PT, para o cargo de advogado-geral da União e, logo, de ministro no STF; negociando com o ministro Gilmar Mendes nos bastidores; mobilizando sindicatos, que agora ameaçam reagir com violência caso o julgamento do mensalão seja “politizado” (caso a corrupção da esquerda seja reconhecida); e a militância fiel, que espalha sandices na rede mundial de computadores para anestesiar a sociedade.

Hoje, mais um prego plantado pela máquina do poder petista esvaziou a bola já bastante murcha do mensalão. A prestação de contas dos contratos da DNA com o BB, antes apontada pelo TCU como irregulares, foram validados pela ministra do TCU, Ana Arraes, mãe do governador Eduardo Campos (PSB-PE), aliado do governo petista, e pelos demais ministros do TCU. A aprovação da prestação de contas, que passou de irregular a regular, baseou-se numa nova lei que estabeleceu outras regras para a contratação de agências de publicidade pela administração pública. Um artigo da lei afirma que essas regras alcançam “contratos já encerrados”. E, assim, foi derrubada uma das bases da acusação do Ministério Público contra o empresário Marcos Valério.

“Meu Deus do céu”, os brasileiros coitados perguntarão em transe, “que lei é essa que dá a si mesma o poder de vigorar retroativamente, negando todo o ordenamento jurídico conhecido a fim de legitimar o desvio do dinheiro público?”. Ora, paspalhos, nada mais simples de responder.  A lei foi criada pelo deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), atual Ministro da Justiça, com o objetivo de dar maior transparência aos contratos de publicidade! Integrante da CPI dos Correios, que examinou irregularidades nesses serviços, Cardozo teve o lampejo de incluir em seu projeto um artigo estipulando que gratificações pagas a veículos de comunicação seriam consideradas “para todos os fins de direito” como receitas das agências de publicidade. O artigo passou despercebido na época e o projeto foi sancionado por Lula virando lei em 2010, permitindo ao TCU considerar regular o contrato antes irregular.

O Procurador do Ministério Público junto ao TCU, Paulo Bugarin, contestou essa decisão: as contas da DNA deveriam ser reprovadas devido à apropriação indevida das bonificações que a empresa deveria ter repassado ao BB: “Não vislumbro no caso a aplicação da lei que alterou o ordenamento jurídico, indicando como receita própria das agências de publicidade os planos de incentivo concedidos por veículos de divulgação. Não somente porque o contrato foi formalizado e executado antes da edição da nova lei, como em face da existência de expressa cláusula contratual que destinava tal verba ao Banco do Brasil”. Mas é este o objetivo da máquina do poder petista: subverter o ordenamento jurídico do país para criar uma realidade paralela na qual o mensalão nunca existiu.

Fontes

Reportagens de Débora Bergamasco, Marta Salomon, Mariângela Galucci e João Domingos para O Estado de S. Paulo:

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,procuradoria-deve-ignorar-decisao-sobre-valerioduto,903211,0.htm.

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,tcu-diz-agora-que-contrato-de-valerio-usado-em-caso-do-mensalao-e-regular,902649,0.htm.

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,acusacao-de-jefferson-a-chinaglia-e-grave-diz-oposicao,902590,0.htm.

LULA PROJETA IMAGEM RUIM DO BRASIL

 

Uma das conseqüências da catastrófica política externa brasileira é a de se tornar um dos alvos do humorismo internacional. Os famosos discursos improvisados de Lula na Presidência do Brasil podem efetivamente ser confundidos com quadros humorísticos dos programas de comédia chula da TV brasileira, tipo CQC, Comédia MTV e, sobretudo, Pânico na TV, o mais baixo, vulgar e preconceituoso de todos. O uso recorrente que Lula faz dos palavrões tornou-se quase uma marca registrada de seu personagem tosco, irritadiço, que adora berrar e fazer gracinhas para uma platéia assustada e submissa. Eis alguns exemplos:

MERDA

PORRA

VIADO

SIFU

Esse Presidente com traços de Jeca Tatu, alvo de tantas paródias nacionais, com sua língua presa, seu dedo cortado, sua megalomania, suas metáforas futebolísticas, seus discursos primários e de non sense, começou agora, graças à sua desastrosa política exterior, a levar o Brasil a ser ridicularizado como nunca antes na História do mundo pelos humoristas internacionais. Os brasileiros, que sempre criticaram os EUA e Israel, sem receber o troco, ao abraçar os inimigos desses países e interferir no andamento das questões da segurança mundial, causaram uma rachadura na tradição de nossas relações diplomáticas. O Brasil terá agora que arcar com as conseqüências pesadas dessas intervenções voluntaristas do globetrotter Lula, e se acostumar a ser um alvo legítimo da gozação.

Uma primeira sátira política internacional surgiu na websérie Isla Presidencial, produzida pelo site venezuelano El Chiguire Bipolar: nessa animação, presidentes latino-americanos (incluindo um Lula ébrio, sempre de copo na mão) zarpam até uma ilha paradisíaca, numa viagem de luxo que acaba em naufrágio, com os presidentes lutando pela sobrevivência:

Em Israel produziu-se, logo após o acordo Brasil-Turquia-Irã, uma paródia política ao estilo caricato de Planeta & Casseta e Zorra Total, pintando Lula com cores fortes, como um tipo atrevido, ignorante, intrometido, gabola, que se põe a tratar de assuntos que desconhece completamente, sempre muito seguro de si. De quebra, os humoristas menosprezam o Brasil como país sem importância de língua espanhola, confundindo samba com rumba, como nos velhos musicais americanos:

Mais sofisticados, os humoristas de South Park superaram em acidez o episódio polêmico da série Os Simpsons, em que o Rio de Janeiro aparecia como selva criminosa cheia de bandidos e macacos, atingindo no episódio de Brasília o cerne da Administração Lula. A tônica é colocada na corrupção, na desonestidade e na mentira, que passaram, desde o impune mensalão que não existiu, a caracterizar os brasileiros, que aprovam seu líder numa proporção de 83%. Em conversa telefônica com alienígenas, Lula tenta apaziguar os novos companheiros, em alusão à influência de poderes estranhos no Brasil, concretizada na aliança com o Irã:

É curioso observar como a Rede Globo anunciou a sátira de South Park como “um episódio sobre a perseguição a um alienígena”, omitindo descaradamente que o cartoon girava de modo explícito e reiterado sobre a corrupção e as mentiras de Lula:

Essa é uma das conseqüências lamentáveis do novo papel que o Brasil agora desempenha, como um elefante entrando num salão de cristal, no complexo tabuleiro de xadrez da política mundial. Não gostamos de reconhecer nossa face refletida de modo distorcido, e para nós sem graça, por esse humorismo estrangeiro. Mas quem sai na chuva quer subconscientemente se molhar. Devemos sempre pensar duas vezes na imagem que projetamos entre as vítimas de nossa política externa antes de meter o nariz aonde não somos chamados. Freud nisso tinha perfeita razão: expulso pela janela, o reprimido retorna pela porta da frente…

O UNIVERSO DE CLARA CROCODILO

Originalmente publicado em: NAZARIO, Luiz. Da natureza dos monstros. São Paulo: Editora do Autor, 1983. O ensaio não foi retomado na reedição ampliada do livro, publicada em 1998 pela Editora Arte & Ciência. Proibida a reprodução sem a expressa autorização do autor.

Um adolescente sensível quer provar ao mundo feminino, através de uma obra, que tem valor social. Nostálgico das tradições, leitor de Jorge Amado, estava destinado a ser um novo Chico Buarque de Hollanda – um compositor querido das famílias. Mas algo nele fracassa. É sincero, mas triste, o amor que dedica aos criadores populares. Quando faz treze anos, a televisão chega à sua cidade, Londrina, no Paraná. Para crescer, muda-se para São Paulo: sua infância é tragada pela história. É quando começa a perder o equilíbrio. Inventa happenings onde combina música e teatro em espetáculos “sem significado”. Os populistas observam-no desde Londrina. Eles se reúnem em fossas e fabricam diagnósticos: é um indivíduo; um cabeça-dura atrasado; uma criança doente.

E, contudo, há casos de crianças saudáveis que param de comer porque não suportam a atrocidade do que existe e não quer perecer. Num romance de Günther Grass, a única reação que uma criança pode oferecer à loucura dos adultos é parar de crescer. Arrigo Barnabé para de cantar. Ele diz por que numa impressionante canção: “Está acontecendo tanta coisa… Eu não consigo mais cantar”. Ali onde canta, não é com sua voz. A revolta do corpo, que rejeita ser apropriado pelo conglomerado, desativando uma função natural “necessária”, é a primeira manifestação de uma humanidade decidida a resistir ao horror. Nasceu para devastar aquele amor que não tem correspondência. Perdendo o seu muito cedo, Arrigo não encontrou outro. É esse no man’s land que sua obra vai ocupar.

Os guardiões da cultura popular, armados de tacapes e flechas, zelam para que o “inimigo” não se aproxime do templo. Em vão: Arrigo profana o santuário, despertando-nos para a massificação que invalida os conceitos pelos quais se podia pensar como um populista. O pensamento mágico tende a confundir o visto com o visor, culpando o visionário pela catástrofe que, de sua posição privilegiada, pode ver ou prever. Nesse sentido, a música de Arrigo apenas parece agressiva: de fato, limita-se a tornar transparente a agressividade da realidade que emoldura – o processo de industrialização total por que passa a América Latina: internacionalizada e urbanizada em seus pontos nevrálgicos, ela só pode manter o ritmo de crescimento sobre a ruína de suas tradições. O sonho agrário do populismo é desfeito pela realidade tecnológica, como um castelinho de areia que se dissolve, engolido pela onda.

As novas gerações são formadas por mutantes, que tentam sobreviver arrastando-se do centro para a margem, da cultura para a natureza. A hipocrisia do humanismo burguês não resiste à nova mentalidade infantil, moldada pela televisão. A reposta mais imediata a esse humanismo é a contracultura, movimento negativo que usa reiteradamente a metáfora do crime gratuito para falar da liberdade. Para essa vanguarda sem tradição, o herói é o arquicriminoso que viola as leis não por necessidade, mas por prazer. O crime gratuito é sinal do mau instinto, da sede de vingança, da perversão sexual: do lado sombrio do homem, negado sem sucesso pelas correntes otimistas do pensamento. Aquilo que o conglomerado não consegue controlar torna-se, para a contracultura, o símbolo da afirmação do homem.

Do arquicriminoso para o monstro há apenas um passo. De vítima total a carrasco total, o monstro libertador investe contra um conglomerado que integra até os deficientes físicos – os “monstros” naturais que permaneciam, por sua condição, afastados da produção. Para a contracultura, a saída está na droga, no sexo, no crime, na loucura, na exaltação do lixo, do grotesco, do glamour e da decadência, na monstruosidade positivamente afirmada. O que o liberalismo oferecia como liberação não passava de barbárie: à cópia falsificada da selva a contracultura prefere a selva original. A decisão posta entre a escolha do mal maior e do mal menor elimina a esperança de uma nova qualidade de vida. A revolta deformada de hoje tenta realizar o bem fazendo renascer a selva natural dentro da selva artificial. A tentativa parece tão destinada ao fracasso quanto o cuidado com que a dona de casa ajeita vasos de planta na varanda do vigésimo andar de seu apartamento.

A afirmação de Herbert Marcuse de que a civilização entrou numa fase sadomasoquista global encontra imediata confirmação numa revista especializada em crimes horrendos, intitulada Eros. O homem “normal” não distingue mais o prazer do sofrimento. Mesmo o sórdido romantismo do tipo “nós dois contra o mundo louco” desapareceu: a subcultura de massa não celebra mais o casal. O mundo louco invadiu o doce lar, impondo a nova moral da promiscuidade. Cúmplices da ordem mutiladora, os poderes que oferecem alívio para a dor são os mesmos que a prolongam pela prévia supressão da cura. Na necessidade cada vez maior de criar-se um bem-estar isolado do mal-estar geral, a infelicidade crônica da civilização obtém, no desejo de felicidade dos indivíduos, a melhor garantia de sua expansão. A mais perceptível característica da moderna engrenagem social é a velocidade com que transforma os que se deixam morder e engolir. O frenesi das mutações monstruosas não concede o tempo de reflexão em que a afetividade e a crítica se desenvolvem. O resultado é a brutalidade e a indiferença de todos em relação a todos. O silêncio e a calma desaparecem e, em seguida, a ternura e o desejo: tudo é som e fúria nas metrópoles.

Nos melhores momentos de sua música, Arrigo Barnabé domina as forças que subjugam o homem: o entendimento da história é obnubliado pelas fragmentações das palavras cujas sílabas são distribuídas nas linhas melódicas (quase sempre atonais) – o que nos leva a ouvir outra vez cada composição e a evoluir com ela do estranhamento ao escândalo; o enlevo do corpo é impedido pelas fragmentações do ritmo por alternância de compassos desiguais – os selvagens do auditório tentam em vão dançar essa música para afastar os maus espíritos; a consciência feliz é ofuscada pelas fragmentações das próprias personagens em permanente mutação – em Clara Crocodilo, um office-boy transforma-se em um assassino; sua ex-namorada transforma-se numa chacrete; em Infortúnio, uma viúva, arrasada com a morte do marido, transforma-se numa prostituta; em Diversões eletrônicas, um maníaco de autorama transforma-se num corredor que agride a amante que, à noite, transforma-se na agressora de um vadio; em Orgasmo total, uma mulher, depois de transformar-se, no escuro, em um animal, oferece-se como refeição.

De vítima a carrasco: esse é o movimento básico das personagens de Arrigo Barnabé. E se possuir uma mulher é ascender à condição de adulto, adquirindo um “saber” biológico, inefável, a integração aí equivale a uma desintegração: as mulheres de suas canções são, ao mesmo tempo, objetos de desejo e símbolos de morte, servindo de intermediárias entre os coitadinhos e o sistema de perdição. Nesse universo, o tempo leva à destruição e à morte: não é o tempo hegeliano – deus onisciente e benigno, que conduz a dialética histórica a um happy-ending, mas o tempo sartriano – deus cego e maligno, que devora os existentes e só lhes deixa uma chance, para dizer sim ou não.

Se a maioria diz sim, Clara Crocodilo diz não. Também uma vítima, que um laboratório psicodélico atrai e transforma em monstro, metade-homem, metade-jacaré, Clara sofre uma mutação radical, que não o torna uma vítima comum, mas uma vítima total. E é a parte de consciência que conserva que faz com que ele se revolte. A revolta não o torna, igualmente, um carrasco comum, mas um carrasco total. Sua fúria não tem objeto: é todo o conglomerado que ele ameaça. Criminoso absurdo, que as balas não penetram e que se enfurece dia-a-dia, até libertar-se das grades – do reino da necessidade – Clara Crocodilo desperta para dedicar-se full-time à violência, realizando, de dentro para fora, a destruição da sociedade.

Liberando a fantasia de dominação das massas, historicamente dominadas, o conglomerado legalizou as forças acumuladas da paranóia. Aí, o desviante e o normal, o irracional e o racional fundem-se numa mesma dimensão. Nenhuma imaginação supera em delírio a própria realidade, tornada Surrealidade. Agora, a arte só mantém seu poder de negação onde e quando se faz dissonante e harmônica, deformante e composta, desfigurante e concreta. Mesmo o Surrealismo foi recuperado: “A psicanálise foi aplicada às ‘public relations’ e à human engineering: o universo onírico do Surrealismo, com todos os seus clamorosos elementos sexuais, foi posto a serviço da publicidade e transferidos para os filmes de terror e para não poucos temas de ficção-científica. Por fim, a prática do ‘brain-storming’ – isto é, das reuniões em que cada um fala sem controle crítico, favorecidas por uma espécie de impudência coletiva do pensamento, com o fim de fornecer material à publicidade – parece uma paródia das sessões da primeira central surrealista”, constatou Franco Fortini.

Arrigo Barnabé rasga, então, o véu da imaginação, para oferecer a realidade em fotomontagens, instantâneos, reportagens, crônicas, fragmentos da surrealidade impressa no cotidiano. E basta ouvir essa estrofe:

Ela era caixa num supermercado

Todo dia ela só apertava os botões

E aquelas máquinas cantavam.

para que o sentido da alienação universal penetre em nós como uma faca. Nenhuma promessa pode exorcizar o mal-estar do presente quando a arte consegue ser apocalíptica limitando-se a enunciar o que existe em cada esquina. Programas de auditório, supermercados, clínicas, presídios, fliperamas, motéis, cemitérios, bares, restaurantes, escritórios, discotecas e drive-in’s são os espaços abertos e confundidos no conglomerado pelo novo estilo de vida. Esse estilo de vida engloba e facilita o movimento e a mutilação do corpo, a pacificação e a agressividade do espírito, o prazer instantâneo e a frustração que perdura; a boa vida que se tem de viver entre o lixo e a diversão, o abandono e a gargalhada, a histeria e a entrega, a miséria e o desperdício, o conforto e a radioatividade; como se nada estivesse acontecendo. E é outro verso de Arrigo que capta, inconscientemente, tudo que está acontecendo:

Você nunca imaginou

Mas eu vi

No luminoso estava escrito

Diversões eletrônicas!

Estávamos acostumados ao que nos cerca: Arrigo recupera nossa memória: essa realidade não existia ontem – foi gerada, lentamente, pela imaginação. Não por uma imaginação humana. Essa realidade – pois é preciso assentir que o que existe é real – foi materialmente produzida pela imaginação mecânica, inconsciente, das massas. Estamos mergulhados na fantasia programada desse cérebro monstruoso e determinado que multiplica suas formas e combinações, às quais devemos nos adaptar como personagens de sonho – sem presença real; sem poder transformar a matéria com nossas mãos; sem noção precisa de tempo e espaço; sem acrescentar, a cada dia que passa, nada ao nada de nossas vidas.

E quando olhamos para um anúncio de fliperama – “gente divertindo gente” – não nos surpreendemos. Divertimos a máquina, enchendo seu vazio de níqueis, e a máquina nos diverte, enchendo nosso vazio de imagens. Imagens de onipotência de nossos torpedos naufragando o submarino do inimigo, de nossas bolas entrando no maior número de buracos – em todos os símbolos de nossos órgãos sexuais humilhados e instrumentalizados para fazer render os indivíduos atomizados. Mas o processo continua: a máquina ensina-nos a maquinar nosso corpo e nosso corpo, maquinado, ensina outro corpo a maquinar. A iniciação se completa quando a máquina se acopla ao nosso corpo para não mais se desgarrar, devorando pouco a pouco a raiz de nossa humanidade. Trocamos de papel com nossas máquinas: enquanto trabalhamos, elas cantam.